O silêncio da Morte

A Morte estava sentada observando sua próxima vítima. De longe assistia os seus últimos minutos, sem pressa. De repente fora surpreendida por uma inusitada companhia, um pequeno menino sentou-se ou seu lado e parecia enxergá-la.

Durante algumas vezes em sua longínqua existência a Morte foi surpreendida por pessoas que a pudessem ver. No entanto estavam sempre em seus minutos finais e já não a encaravam surpresas, mas sim com satisfação ou pela tristeza.

– A senhora é a Morte, não é? – perguntou o garoto.

– Sim. – respondeu o ser surpreso, pois nunca tivera um conversa com alguém.

– Prazer em conhecê-la. – saudou educadamente o menino.

– O prazer é todo meu. – respondeu a Morte um tanto sarcástica.

– Está prestes a matar alguém?  – a criança questionou sem rodeios

– Sim. – respondeu ela ainda impressionada pelas perguntas do menino.

– É verdade que você escolhe suas vítimas?

– Sim

– E é verdade também que não faz distinção de quem vai morrer?

– Sim

– Me diga, então, porque o maior número de mortes está sempre entre as populações mais pobres e os doentes?

Esse foi o primeiro silêncio da morte. Sem saber que explicação dar permaneceu quieta refletindo.

– Você trabalha sozinha?

– Às vezes. – respondeu já se irritando com as muitas perguntas.

– E gosta de seu trabalho? – interrogou o menino.

Novamente a Morte se vê viu a pensar, mais uma vez espantada pela nova pergunta:

– Sim. – afirmou veemente.

– E nunca se arrependeu do que faz?

– Não. – respondeu um tanto insegura, mas acreditando que a criança não percebera seu pequeno vacilo.

– Agora me responda, se quisesse morrer o que seria preciso?  – perguntou a criança, sem encarar a Morte

– Viver.

– E se quisesse viver?

– Ora, nunca esquecer-se de mim.

Dessa vez foi o menino que ficou em silêncio. Mas logo em seguida desatou a fala:

– Entendo. A senhora é um tanto confusa, é o que se nota. É egoísta, faz tudo a sua vontade sem se importar com as suas próprias ações, é bem seletiva, e carrega um preconceito disfarçado. Às vezes não se arrepende do que faz, pois o importante é que seu objetivo seja alcançado, mesmo que esteja causando o mal. Mas agora entendo, a senhora não é nada do que dizem por ai, a verdade é que você só é humana.

O menino levantou-se e saiu, deixando um ate logo à Morte. E ela ficou em silencio pela segunda vez naquela conversa. Um silêncio tão grande que fez com que incrivelmente ninguém morresse naquele dia.

 

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por historiasdebau